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Filter bubbles: O que é e como está afetando você neste exato momento?

Atualizado: 30 de dez. de 2020



Quando a ciência mercadológica percebeu que a comunicação em massa e sem critério é ineficiente, uma nova estratégia precisou ser adotada para que não se desperdiçassem esforços com um público que não teria qualquer propensão a consumir o produto anunciado. Nesse contexto é que surgiu a publicidade direcionada e o efeito cômodo, porém bastante negativo dela: as "filter bubbles".

A publicidade direcionada enxerga que é muito mais efetivo se comunicar diretamente com o público-alvo e com os consumidores propensos a verdadeiramente consumir o produto do que aleatoriamente distribuir panfletos por aí, sem qualquer critério ou planejamento.


Adotar uma estratégia de publicidade direcionada, ao invés da publicidade em massa, é benéfica para quem vende e impacta diretamente nos resultados da venda daquele produto, além das reduções nos custos com a divulgação. Neste sentido, por exemplo, podemos imaginar que há uma maior probabilidade de que leitores de revistas de investimentos tenham interesse na aquisição de cursos sobre como investir, do que os demais indivíduos, já que subentende-se que quem está pesquisando e lendo sobre o assunto tende a ser um potencial investidor.


Do mesmo modo, o anúncio de um livro biográfico de um grande esportista tende a ser mais efetivo se hospedado no caderno de esporte de um determinado jornal, uma vez que os leitores daquele caderno específico têm predileção sobre tal assunto. É dessa forma que a publicidade é direcionada em um ambiente propício para captar a atenção do consumidor, facilitando o encontro entre comprador e vendedor, isto é, facilitando que a aconteça o principal objetivo da publicidade: a aquisição do produto pelo consumidor.


No meio digital, nada disso é diferente. Apenas uma ferramenta poderos entra em jogo: o buscador. Qualquer que seja o buscador que você esteja habituado a utilizar para buscar por um termo, ele é como um confidente dos seus desejos, questionamentos e interesses. Por isso, saiba e tenha certeza de que os resultados que são apresentados na sua tela foram filtrados e exibidos naquela ordem especificamente para você.


Isso significa que se eu pesquisar pelo mesmo termo que você, nós dois teremos resultados diferentes. Isto é fenômeno “filter bubbles” (bolhas de filtro), que faz com que os resultados mudem de pessoa para pessoa, de acordo com o seu histórico pessoal de navegação.


Em outras palavras, é como um hack, um recurso para facilitar uma das tarefas mais difíceis: a de convencer alguém a consumir algum produto. Qualquer que seja esse produto, desde um conteúdo ideológico a um bem material. Essa facilidade só é possível com a aplicação dessa estratégia de publicidade direcionada, que coloca cada indivíduo na sua própria bolha, tornando mais fácil realizar esse convencimento. Afinal, não é um convencimento que precisa ser realizado do zero, o indivíduo já está pré-disposto a consumir o produto.


Vamos elucidar mais um exemplo. Você vai participar de uma corrida de 100 metros e precisa ganhar o troféu. É permitido a você, sem nenhuma ilicitude, escolher entre iniciar a corrida no ponto de largada, como de costume, ou iniciar a corrida no meio do percurso, isto é, você precisaria correr apenas 50 metros, metade do trajeto, para conquistar o troféu. O que você escolheria? Obviamente a vitória é mais provável na corrida que se inicia na metade do percurso, aos 50 metros, já que o objetivo é simplesmente ter o troféu. Assim é com a publicidade direcionada. Tendo em vista que o objetivo é vender o produto, é mais provável e estratégico direcionar uma oferta de um determinado produto para quem já está na metade do caminho do convecimento.


O efeito dessa publicidade direcionada, quando julga você como um consumidor nada provável de comidas fitness, de investimentos financeiros ou de cursos de línguas estrangeiras, é de te excluir desse universo de possibilidades. Essa personalização excessiva da sua vida conectada coloca você no que alguns autores chamam de “câmaras de eco” ou “salas espelhadas”, onde tudo o que você pode ver e consumir é reflexo de si mesmo. Por outro lado, é muito confortável não ser contrariado, sentir-se como se a internet girasse em torno de você e de suas predileções, e ter todas as suas requisições ofertadas sem esforço maior do que um clique.


Note porém que a lesividade dessa invasão de privacidade é tão grave e problemática, que prejudica o seu direito à liberdade de informação ao cercear a sua liberdade de ter acesso a todo e qualquer conteúdo. Basicamente você se distancia cada vez mais do diferente, do inusitado, daquilo que pode te surpreender, te fazer mudar de ideia e de evoluir. Ficamos todos assim, presos nos nossos próprios gostos e interesses, isolados de experimentar coisas novas ou até mesmo de ter acesso aos argumentos dos indivíduos que pensam diferente da gente.


O especialista Eduardo Magrani resume como tudo isso acontece:

Na linha de como os mecanismos de navegação estão se configurando, a internet estaria se transformando em um espaço no qual é mostrado o que se acha que é de nosso interesse, mas nos é ocultado aquilo que desejamos ou eventualmente precisamos ver. Desse modo, pode-se dizer que a filter bubble e seu caráter prejudicialmente paternalista pode implicar em restrições a direitos e a garantias fundamentais, a autonomia dos indivíduos e a liberdade de expressão, sendo prejudicial de forma geral para o debate na esfera pública conectada.

Depreende-se portanto que, a filtragem do conteúdo com base na definição do nosso perfil de usuário, apesar de ter surgido como uma necessidade e um recurso bem-vindo devido ao comodismo de encontrar algo certeiro de forma rápida e eficaz, de outro lado também representa um problema quando há excesso de filtragem. Para além da conveniência e comodidade, nós temos a nossa liberdade de escolha limitada sem prévio conhecimento ou autorização, e assim nos afastamos de pontos de vista divergentes, limitando a nossa capacidade de diálogo na sociedade e empobrecendo nosso raciocínio. Afinal, os conteúdos que chegarão até nós serão estritamente aqueles que nós, enquanto usuário, desejamos ou desejaríamos receber segundo uma predição algorítmica[2].

[1] O termo “filter bubble” é utilizado por Eduardo Magrani. MAGRANI, Eduardo. Democracia conectada: a internet como ferramenta de engajamento político-democrático. Curitiba: Juruá, 2014. [2] MAGRANI, Eduardo. Democracia conectada: a internet como ferramenta de engajamento político-democrático. Curitiba: Juruá, 2014. p. 120.

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